Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

Conversa entre pai e filho

O tema da violência nas escolas tem sido nas últimas semanas, debatido até à náusea. Já cheira mal o raio do tema. Vamos debatê-lo mais um pouco? Até ficar com aquele inconfundível aroma a náusea fresquinha? Vamos? Ok.
Fala-se que os meninos têm problemas em casa, que os pais não lhes dão uma boa educação, que não lhes impõem limites, que isto e aquilo e mais o camandro e que depois descarregam a sua fúria na sala de aula, de preferência num dos olhos do professor, ou nas costelas. Mentira pura. Excepto, claro está na parte de partir costelas e esmurrar olhos, aí é bem verdade e ainda se podia incluir mais "miminhos" na lista.
O "Tudo o que queria saber sobre electrodomésticos, Freud, parvoíces e parente(se)s", tem na sua posse uma conversa entre um pai e um filho, que vai provar exactamente onde eu quero chegar. Um grande momento de jornalismo, só ao alcance dos mais prestigiados meios de informação internacionais, que para quem não sabe são o 24 Horas, O Diabo, O Crime, O Tal & Qual e o Telejornal da TVI. Então cá vai:
Filho: Paizinho, tenho andado aqui a pensar numa coisa...
Pai: Diz filhote, o que se passa nessa tua pequena e por vezes confusa cabeçita? Conta ao paizinho, que pode ser que te possa ajudar!
Filho: Está bem pai. Sabes, eu estava a planear com uns amigos meus da escola, o Carlinhos e Miguel, aqueles que cá costumam vir a casa ver o Wrestling comigo, em agredir de forma muito gira a nossa professora de Estudo do Meio, mas como só somos três e temos todos só oito anos não sabemos muito bem o que fazer. Será que me podias ajudar?
Pai: Hummm... filho...sabes...isso de agredir uma professora...pois...como é que o pai te há-de dizer isto...É UMA IDEIA DO CATANO!!! Ah, puto!! Vê-se logo que és meu filho pá!! E já pensaram no que hão-de usar para bater no raio da velha?
Filho: Pois pai, eu estava a pensar em pedir o taco de basebol que tu tens na mala do carro, aquele que usas para dar porrada nas pessoas com quem te irritas no trânsito, e também a faca de mato, modelo "Rambo" que tens ao pé do taco, para quando eles começam a estrebuchar muito...
Pai: Claro que te empresto filho! Nem sabes o quão orgulhoso me deixas! Já não me sentia assim desde que fizeste xixi em pé pela primeira vez!!
Filho: E paizinho? Estás a ver também a pistola de calibre 9 mm que tens no porta-luvas para quando os tipos no trânsito te chateiam mesmo a sério e tu tens que lhes dar um balázio nos cornos, estás?
Pai: Sim, diz.
Filho: Podias-ma emprestar também?
Pai: Claro que sim, filhote. Mas primeiro o pai tem que te ensinar a disparar, está bem? Era uma irresponsabilidade da minha parte deixar-te levar a pistola para a escola para fuzilares a tua professora sem saberes disparar. Ainda podia acontecer algum acidente, como falhares o tiro, entendes filhote?
Filho: Claro paizinho, eu entendo.
Pai: Muito bem.
Filho: E podias-me ensinar o que eu devo fazer para que a professora fique mesmo aleijadinha?
Pai: Com todo o gosto! Então olha: primeiro, vocês os três põem-se de volta da velha, um de vocês dá-lhe com o taco de basebol nos joelhos, para lhe partirem as rótulas muito bem partidinhas, para que ela não possa fugir. Depois espetam-lhe uma facada aqui e ali, só para que a sacana saiba quem é que manda. E no fim, se ela estiver a relinchar muito, manda-lhe um tiro que é para a gaja se calar. Percebeste, campeão?
Filho: Sim pai! Percebi tudo! Boa!
Pai: Ah, se tiverem alguma dúvida ou se não forem capazes de fazer alguma coisa, ligas ao pai que eu vou lá ajudar-te, está bem filho?
Filho: Está pai! Obrigado!! És o melhor pai do mundo!!!

Uma conversa absolutamente ternurenta e muito cúmplice entre um pai e um filho. Fiquei estarrecido. E ainda há quem diga que os pais não acompanham os miúdos e nem os educam. Um pai que até vai ensinar o filho a disparar, que se dispõe a ajudá-lo no que for preciso... enfim, um pai muito extremoso.

Escrito por: João Cacelas às 11:08
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9 comentários:
De Zé da Burra o Alentejano a 3 de Abril de 2008 às 16:03
Se repararmos na Natureza, nas comunidades de animais há sempre indivíduos que procuram tornar-se líderes dentro dessas comunidades e para atingir um estatuto superior testam os seus iguais e confrontam-se com eles para imporem a sua autoridade e atingirem a posição de líderes; alguns não chegam ao topo, ficam em posições abaixo: 2.º, 3.º lugar etc. estabelece-se enfim uma hierarquia que é respeitada por toda a comunidade até que apareça um novo líder: normalmente um elemento mais jovem e robusto que consegue destronar o líder anterior.
Nos seres humanos passa-se exactamente o mesmo e tal é observado nos empregos, nos clubes, nos partidos políticos, nas escolas e até em nossas casas. Até de entre os que seriam em princípio iguais se estabelece uma relação hierárquica. O poder e a liderança ganham-se suplantando os iguais e os concorrentes, mas também é preciso exibir essa qualidade aos restantes membros do grupo para que o líder seja por eles reconhecido e respeitado. Então, como chefe poderá beneficiar de privilégios vários que me escuso de enumerar.

A delinquência e violência mais graves que se observam nas escolas são precisamente o processo de luta para atingir, exibir e ganhar um estatuto superior na escala da liderança sobre colegas, professores e funcionários e, uma vez conseguida essa posição há que mantê-la, demonstrando o facto constantemente porque há sempre um aspirante a líder à espreita.

Assim, quem defende que a escola deve funcionar como uma “democracia” está completamente enganado:
1.º) A escola nunca poderá ser uma democracia porque os alunos candidatos a líderes vão por à prova os seus professores, funcionários e próprios colegas, para tentar dominá-los e exibir a sua liderança. Isso não pode acontecer: a autoridade do professor nunca pode ser ultrapassada pelo aluno. Em muitos casos isso já aconteceu e eis aí porque uma turma respeita um professor e não outro. Os professores com uma personalidade mais frágil são facilmente dominados e muitos acabaram por abandonar a profissão;
2.º) As verdadeiras democracias também não existem, nem entre nem dentro dos próprios partidos. O que existe é muita luta entre partidos pela liderança do país e muita luta pela liderança dos partidos dentro deles, novos líderes estão sempre à espreita. Isto não tem nada de estranho e passa-se em qualquer outro lugar em que haja o exercício do poder. Para se chegar ao topo há que ultrapassar muitas barreiras e os adversários ficarão sempre à espreita para depor o líder logo que seja oportuno.

Os nossos filhos começam desde muita tenra idade a testar os pais e os possíveis irmãos para verem de que forma conseguem obter aquilo que desejam: choram, berram, batem o pé, chegam a bater-nos: começam com um sacudir de mão, depois dão uma “palmadinha” e se não os pararmos em breve crescerá a sua ousadia. Os pais sabem-no bem!

Zé da Burra o Alentejano


De João Cacelas a 3 de Abril de 2008 às 16:34
Exactamente Zé da Burra o Alentejano.
No reino animal (ser humano incluído) há e haverá sempre muita luta para chegar ao poder, ao topo.
É a tentativa de "matar o pai", como Freud afirmou.
E onde se pode, de facto, verificar isso de melhor forma ou pelo menos onde está mais à vista é sem dúvida nas crianças. Porque estas fazem-no ainda por puro instinto, na sua maioria das vezes. Claro que quando crescerem irão fazê-lo na mesma, mas sempre com interesses por detrás, como no caso dos clubes, partidos, etc,etc.
Há uma grande necessidade de afirmação por parte das nossas crianças e jovens, que estão cada vez mais competitivos.
E todos nós sabemos que é muito mais fácil para uma criança afirmar-se como líder entre os seus pares recorrendo ao uso da força, mostrando que é o mais forte, etc,etc, do que através de outros meios. E o caminho mais fácil de seguir é sempre o mais apetecido.
Não sei se o Zé da Burra leu ontem uma notícia sobre um grupo de crianças de 8 e 9 anos, que nos EUA tentaram espancar violentamente uma professora com facas e tubos de canalização. Tinham tudo muito bem planeado. E tudo isto porque a professora ralhou com um deles porque ele estava em pé numa cadeira.
Precisamente para mostrarem quem manda, lá resolveram planear espancar a professora e teriam conseguido, não fosse um polícia a apanhá-los com as "armas".
Concordo plenamente consigo.
Obrigado pela opinião, Zé da Burra, espero que goste aqui do estaminé.
Tenha um resto de bom dia e um bom fim-de-semana.


De Zé da Burra... a 3 de Abril de 2008 às 16:45
Ouvi vagamente sobre a notícia que refere, mas fiquei agora a saber mais sobre o que se passou.
Os meus cumprimentos e retribuo o desejo de um bom fim de semana.
Eu, se puder talvez vá até à praia.


De Zé da Burra o Alentejano a 3 de Abril de 2008 às 16:36
Quando este menino se portar mal na sala de aula aconselho os professores a chamarem o tio ou o vizinho, mas nunca o pai. É que o pai é ainda pior que o filho. Oh pá!, mas assim quem é que educa a criança? o pai não é?



De João Cacelas a 3 de Abril de 2008 às 16:44
Há casos assim. Os meninos portam-se mal, são repreendidos, os pais são chamados às escolas e acabam por chegar a vias de facto com os professores, que é como quem diz, agridem-nos.
Felizmente muitos dos pais, para bem deles e dos seus filhos não são assim.


De João Cacelas a 3 de Abril de 2008 às 16:46
E claro está que se o professor conseguir impor respeito na sala de aula, situações como esta não acontecem.
Se for mole, o mais provável é ser facilmente dominado pelos alunos, que farão tudo o que quiserem dele.


De Regina a 3 de Abril de 2008 às 22:32
Este post é muito enganador :D . Ouviu sr. Cacelas? Fiquei muito chocada com a maneira como descreve esta conversa. Sim senhor, percebe-se mais ou menos a sua intenção, mas não havia necessidade de tanto :( .
E, para esclarecer algum cusco ou cusca , quero desde já aqui postar que sim sr., este cavalheiro é talvez a pessoa que conheço que mais respeita o meio ambiente (este comentário serve para outro post que anda mais ou menos por estes lados) e a pessoa mais sensível, mais educada, mais querida, mais...Acho que este "malandro" ás vezes se transforma quando começa a escrever :D


De Zé da Burra o Alentejano a 7 de Abril de 2008 às 11:22
A violência existe nas escolas porque falta a autoridade e o castigo que seria devido por mau comportamento, indisciplina, delinquência e até crime.

A maioria das crianças e jovens pode ser corrigida de qualquer desvio sem castigos físicos, que são necessários para outros e basta um "rebelde" para boicotar uma sala de aula, arrastando com consigo outros que não levantariam qualquer problema. Os colegas mais humildes são as primeiras vítimas e a escola não tem hoje maneira de as proteger.

Como não se podem aplicar quaisquer castigos físicos, muito úteis até certa idade, e na falta de outros que sejam realmente eficazes: resta a impunidade que serve de incentivo para o desenvolvimento deste fenómeno. Umas palmadas no rabo, na mão ou até umas reguadas até cerca dos 10, 12 anos de idade não causavam qualquer trauma nas crianças antes, porque causam agora? Depois dessas idades os problemas deverão ser encaminhados para "Casas de Correcção" ou lá como lhes queiram chamar, onde deverá ser um trabalho de socialização dos jovens, incutindo-lhes regras éticas, sociais e hábitos de trabalho. Aí deverão estar sujeitos a regras várias, como: levantarem-se e deitarem-se a uma hora certa, tratarem eles próprios das suas necessidades pessoais, fazerem a cama e outras tarefas. As actividades escolares e a preparação para uma posterior vida profissional deverão estar incluídas. As actividades de lazer devem ser permitidas só em dias pré definidos e poder ser canceladas em caso de castigo.

Se nada mudar nas escolas, continuaremos a criar cada vez mais seres insociáveis que farão apenas o que lhes der prazer e nunca se habituarão a cumprir regras sociais e outras, pelo que serão uns inúteis marginais e viverão sempre à custa do trabalho alheio porque é mais fácil.

Mas os castigos físicos são por ora condenados pelas nações ocidentais (EUA, EU onde nos incluímos). As mudanças terão assim que ocorrer primeiro em países como os EUA, UK, França..., onde o problema é até maior que em Portugal, por isso acredito que as actuais “modas” sejam revistos e voltem a ser permitidos alguns castigos físicos aos alunos.

Portugal, nisto, como noutras matérias seguirá depois o exemplo. Os pais irão então aceitar a alteração e compreender a necessidade para a protecção até dos seus próprios filhos que são as primeiras vítimas dos poucos jovens delinquentes.

Há quem diga que tudo se resolve se os pais derem educação aos filhos. Pergunto: e quando os próprios pais não a têm, como podem ministrá-la aos filhos?

Há quem diga que isto é uma fatalidade da “Democracia”. Não creio, direi antes que são “modas”, e como tal, um dia mudarão. Os EUA vivem em democracia há muitos anos e só depois da 2.ª guerra mundial é que criaram esta “moda”. Será que até então não havia uma verdadeira democracia nos EUA?

Zé da Burra o Alentejano



De João Cacelas a 9 de Abril de 2008 às 16:24
Os castigos físicos até podem ser úteis, mas não creio ser essa a solução para esta "moda", que não é moda nenhuma.
Isto é uma tempestade num copo de água, indisciplina sempre houve e sempre haverá, o que hoje em dia há é uma maior cobertura por parte dos media, para além do you tube que permite divulgar os vídeos facilmente, com a ajuda dos telemóveis com câmara...


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