Muito se tem falado em criminalidade violenta nos tempos. Muita gente até já se questionou se o crime por si só não é uma coisa violenta e que aleije o suficiente. É sim meus meninos, mas o que vocês não sabem é que as autoridades usam o termo "crimes violentos" para o diferenciar da outra modalidade do crime praticada em Portugal: os crimes meiguinhos.
Passo a explicar: no crime praticado em Portugal há duas categorias: a violenta e a meiguinha. E como a primeira tem vindo a ganhar muito protagonismo face à segunda, o Hemiciclo, que é amigo dos pequeninos, resolveu entrevistar José Alberto, um praticante de crimes meiguinhos, considerado por muitos como o último gentleman do crime
português, para que vocês possam ficar familiarizados com esta forma muito mais fofinha de praticar o crime. Então cá vai:
Hemiciclo: Boa tarde José Alberto, o que é isto do crime meiguinho?
José Alberto: Olhe, o crime meiguinho é mais que uma forma de praticar o crime, é uma maneira de estar na vida. Só quem pratica a crimomeiguice entende do que falo. Isto não é só roubar e tal, é uma coisa séria e que tem que ser encarada como tal.
Mas, José Alberto, não me respondeu à pergunta...
Lá está! Você pratica crimomeiguice? Não, pois não? É óbvio que não entenda do que lhe falo.
Mas então no que consiste a crimomeiguice? Quais as diferenças em relação ao crime violento?
Olhe, eu nem queria falar nessa bandidagem, que isso é malta que só vem desprestigiar a prática criminosa que se pratica em Portugal, que como já lhe disse é uma coisa séria e muito bonita.
Se o José Alberto é um criminoso meiguinho eu não sei, mas que foge muito bem às perguntas, lá isso foge...
É do hábito. Sabe que isto de ter que estar sempre a fugir à polícia torna-nos em pessoas esquivas e fugídias.
No que consiste então a crimomeiguice?
É muito simples: a regra de ouro da crimomeiguice é a boa educação. Para se praticar o crime meiguinho há que ser bem-educadinho e usar muitos diminutivos, as pessoas gostam disso, se não conseguir fazer isso nem vale a pena tentar enveredar por esta vida.
Pode exemplificar?
Com certeza! Olhe, ainda na semana passada assaltei uma senhora que estava a entrar no seu carro, no estacionamento de um centro comercial e como é que acha que eu a abordei? Aos gritos? Com uma pistola apontada à cabeça? Claro que não! Isso é para os brutos do crime violento! Cheguei ao pé dela e disse-lhe: "Muito boa tarde, será que a senhora se importava muito que eu a furtasse e lhe ficasse com o carrinho e quiçá, com um ou outro objectozinho de valor que possa ter em sua posse? Ficava-lhe muito agradecidozinho se me fizesse esse obséquiozinho. Isto se não tiver nada combinado para agora." É claro que ao princípio a senhora assustou-se, mas depois cooperou comigo.
Mas assim? Sem ameaças?
Com certeza! A regra n.º 2 da crimomeiguice é não ameaçar a vítima em circunstância alguma. É claro que temos as nossas armas, mas é mesmo só para assustar. Normalmente até ofereço uma rosa às senhoras e um par de peúgas com losangos aos senhores.Orgulho-me de em 25 anos de carreira nunca ter disparado um tiro, a bem dizer, mesmo que o quisesse fazer não sabia como, mas isso não interessa nada. Outra regra-chave é tratar bem as pessoas. Neste assalto que lhe falei, por exemplo, até fiz questão de deixar a senhora à porta de sua casa e só depois lhe fiquei com a viatura e com 200 Euros e mais umas jóias valiosas. E no fim, ainda me agradeceu pela boleia. E se a casa das vítimas for a alguma distância, deixo-lhes sempre dinheiro para o Táxi. Esta nem é por simpatia para com as vítimas, mas sim para ajudar os taxistas que se nós, ladrões, não nos ajudarmos mutuamente, ninguém o vai fazer por nós.
Pois...e o que acha desta vaga de crimes violentos?
Já lhe disse que disso não falo! Você é chato pá!!!!
Mas diga lá.
Olhe que o amigo já me está a tirar do sério!!!!
Então mas e a boa educação e tudo isso?
Mau Maria, que o gato já mia. Não me arrelie!!
Afinal o José Alberto não é assim meiguinho quanto... -"POW!!POW!!!POW!!!!" (disparos) - ...issoooo...
É lá, que afinal isto sempre funciona e eu a pensar que o Cajó me tinha vendido uma réplica...então e agora? Já não fazes perguntas pois não? Toma lá que é para aprenderes a não ser chato! Olha-me este! A pensar que troçava com a crimomeiguice! Isto é uma coisa muito séria meu menino! Não se brinca! Mas já agora, porque sou bem-educado, vou levá-lo ao hospital que a coisa parece estar feia para o seu lado...esse osso da clavícula à vista e o pulmãozito perfurado...hummm...isso é coisa para dar em chatice...
Nota: entendam por crime violento os assaltos com à mão armada e coiso e tal. Os políticos não são chamados para este caso.
Podem dizer o que quiserem sobre o Telejornal da TVI, mas numa coisa ninguém os bate: na quantidade impressionante de sinónimos para a palavra "assaltantes" que aqueles meninos utilizaram em apenas 1 minuto e meio de reportagem. Ei-los: "larápios", "meliantes", "bandidos", "gatunos", "ladrões" e por fim, a cereja no topo do bolo: "amigos do alheio".
Mais tempo de reportagem houvesse e mais sinónimos de "assaltantes" teríamos nós ouvido. E só teríamos ficado a ganhar com isso. Isto sim, é jornalismo. E do bom.